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Que é sermos nós próprios PDF Correo-e
Domingo, 06 de Xaneiro do 2008

QUÉ É SER GALEGO?

Ernesto Vázquez Souza, é um galego destes que estam desterrados na capital da nossa comunidade autónoma de Castela e Leom, Valhadolid, e acolá nessa distância na que ansia poder passar os montes de Leom (os que de sempre separarom a galegos de leoneses, até que Isabel I a Católica e Filipe II pugerom os cimentos de mudarem as cousas), faz interessantes reflexões para armarmo-nos todos com boa substância na defesa do próprio, que polo seu interesse hoje trazemos a estas paginas sempre abertas e corações ceives.

Modelo para armar I:

Fomos a Galiza outrora uma nação orgulhosa, emergimos antes e fomos nós quando poucos eram ainda em Ocidente. Os nossos antergos construíram boa parte da Ibéria: Castela nos deve existência e Portugal língua e cultura. A fartura dos nossos campos e o trabalho da nossa gente -não o ouro das Índias- chegou para erigir os mais belos palácios de Salamanca, Valhadolid e Madrid

Que galegas são as poderosas casas de Zúñigas, Estúñigas, Rojas, Sandoval, Lerma, Tellez, Figeroas, Sarm[i]entos, Marquez, Menezes, Salinas, Biedma, Alba, Fajardo...

Como que os Velez conquistadores e senhores de Murcia são galegos, Que galegos de linhagem era, os senhores e fidalgos todos da Estremadura e Andaluzia e a Mancha, Incluído mesmo o Grão Capitão que se nado no Sul era neto de Hernan Nuñez de Temes, galego provado que tomou Córdova de mouros e ficou lá e por isso todos os seus segundos nos terços da Itália o eram.

Nos nossos vales mais ricos, suaram sangue para que os condes que agora fazem parte da listagem de títulos e património da Cayetana Fitz-James Stuart pagaram o mecenato das artes e as letras com que Castela brilhou nos seus tempos áureos. Os nossos camponeses pagaram as galeiras e permitiram que chegassem as Espanhas, da Itália os poetas, as estátuas, as pinturas e os planos da arquitectura, que mudariam a estética do mundo.

As galas das cortes castelhanas e as embaixadas ilustres dos reinos da Itália, da França, da Alemanha, dos Países Baixos, da Inglaterra, os virreinatos da lagarcia América, sabem do nosso tesouro e da nossa energia. A nossa força humana, as caixas dos nossos paços de brasões mais antigos, águias e cálices, sobervos como os primeiros foram gravados por todas as terras. As nossas vilas e concelhos armaram por séculos a infantaria e as armadas castelhanas.

Nossas são as bandeiras que dizem suas e muitas das suas vitórias e glórias passadas. Houve um tempo que durou vários séculos que ao apelo apenas de Lemos e Monterrei, se defendia Galiza, com uma força humana tamanha que chegara para varrer Terra Ancha inteira e sitiar Aragão ou a França dos Capetos talvez

A diplomacia e a Corte espanhola contou até 1610 para os assuntos de Estado com destacados galegos. O declínio hispânico geral enceta com o afastamento polos validos dos Austrias menores do Lobby galego em Madrid, facto que provoca as primieras reivindicações da dívida histórica: Carta de Gondomar de 1616, El Buo Gallego atribuido ao Conde de Lemus (1620), recuperação do voto em Cortes 1623 e as primieras advertências claras de que com essas políticas imperiais e militaristas a Espanha se ia pola posta.

Galegos: os gendarmes do Império. A elite capitã e a massa escura que forneceu companhias, terços inteiros o grosso da Marinha Real. Povo pacífico, nunca conquistador de seu, mas nunca conquistado.

Admiração e espanto na Bretanha de 1580 a 1808. E de longo como cita Feijo a Silio Itálico:  Segne viris quidquid sine duro Marte geredum est.

Cito a este Autor, aunque Español, según la opinión más probable que le hace natural de Sevilla, porque respecto de Galicia para cuyo elogio le alego, bien indiferente es un Andaluz. Estrabón, que es harto Extranjero, pues fue oriundo de Creta y nació en Capadocia, confirma el dicho de Silio Itálico, llamando a los Gallegos gente sumamente guerrera y dificultosísima de conquistar: Bellacissimi, & subjugatu difficillimi. (fejoo,t.IV.- XIII glorias)

Galiza rexurde para a história em 1808 quando varrida a Espanha estatal pola Grande Armé, depois de ser aldrajada novamente polas Juntas das outras partes da Espanha, avonda-se, e vai ser primeira nação e única em fazê-lo em solitário, para botar os invencíveis até daquela exércitos napoleônicos.

Galegos, tesouro galego, armas galegas e política galega expulsou aos franceses da Galiza continuando até o noroeste quando deixou de existir Espanha entre 1808 e 1814. Unica nação que por si própria venceu à França pela primeira vez na Europa (Pontesampaio, Vigo, Lugo, 1809 ) e galegos os últimos em derrotar a França na última Batalha em Terreno peninsular (Sam Marcial, Euzcadi, 1814) aquela que deixou admirado a Wellington e fez escrever em desagrávio aquilo de "españoles, imitad a los inimitables gallegos..."

Mas, a cousa está em que nunca gostamos da chacina, nem demos importância à néscia barbárie das trombetas imperialistas, por isso não nos importamos entanto os sempre invejosos dos galegos feitos borraram os fastos dos fortes galegos, porquanto esses apelos só se usaram na defensa.

Os filhos da Galiza povoaram com respeito por todas e cada uma das nações da América e em toda parte do mundo há galegos de cultura ou nação que contribuíram às artes, às letras à política, à educação, à independência e à fartura desses estados. Galegos, filhos e netos deles, que não terão passaporte espanhol, nem leis, nem cultura da Espanha, mas galegos. Idênticos em rosto e fasquia, como uma vez ironizou o António Pérez Prado, mestre, daqueles judeus portenhos seus compatrianos.

E, em todas partes, da Alaska à Patagónia, e na Europa, na Oceânia e pontos da Ásia e África também, galego é sinónimo de trabalho e orgulho, de respeito e de integração. Mas também de memória e identidade inabalável, de lealdade. Por essa lealdade a Espanha -que nos nega e despreza- “gallego” significa Espanha nas repúblicas da América do Sul (por isso carrega também toda a pejorativa de que é capaz um orgulho nacional que se construi na negação as origens).

O doutor nunca entendeu como os seus ancestros conseguiram meter-nos a todos e convencer o mundo nessa ideia louca de que nós erámos por direito a Espanha inteira. Talvez, poque a nossa massa humana algum dia antano de certo foi mais Espanha em América a custe de deixar de ser Galiza parte mesma em si própria e no conjunto ibérico. E trabalho custou: três séculos de sangria humana naquele este vai-se, aquele vai-se e todos, todos se vão, Galiza sem homens quedas que te poidam trabalhar.

Somos mundialmente conhecidos para quem nos tratou, como povo singular, digno, trabalhador, cuidadoso coa terra e o mar, amante das liberdades individuais, do comércio (que é riqueza e intercâmbio), familiares com longas memórias e mui amante dos nossos costumes e tradições. Os passageiros do XIX nos viram récios no trabalho, voluntariosos, empreendedores, teimosos, gostadores do vinho e da mesa em franca companhia, mui saudosos, cantigueiros e dados aos nossos pensamentos.

Somos também curiosos e delongados conversadores, o que chega e o que vai. E na solidez do nosso relativismo ancestral (vacina contra todo integrismo humano ou divino) reside a nossa capacidade (pois cada um conta a feira como nela lhe vai) de entender outras nações, outras ideias, outras gastronomias outros costumes, outras línguas e outras músicas.

O que nos permitiu sempre viver com facilidade noutras culturas e criar riqueza para elas, entanto não se produzir o retorno famoso no que sempre, e ainda até nas campas e jazigos, matinamos. Por isso, se há uma gente cosmopolita e mundana, não racista somos nós que emparelhamos frequentemente com homens e mulheres de outras latitudes, raças, crenças e culturas.

Nada devemos e muitos nos devem. Nenhum povo da África, da Ásia ou da América pode tirar-nos ao rosto que o nosso medre se deveu ao seu espólio. Pagamos legitimamente as nossas dívidas e fomos sempre generosos -como nos aprenderam os nossos maiores para não dever- nos convites. E na hora dos esforços colectivos, não falhamos a nossa parte, pois é justo. Vivemos nessa lei e a nossa palavra é nossa. Preferimos os feitos às palavras de vaidade (as vacas valem o que valem) e a convivência ao enfrentamento.

Não nos importamos de ceder, mas, se há que ceder, até um limite. Se há que preitear se preitea. Somos lentos de irritar, mas duros na nossa resposta. Se houve um povo pacífico na selvagem Europa, fomos nós. Mas, na guerra o nome dos inimitáveis galegos é o dos indómitos habitantes de terra endejamais conquerida.

Apenas os nossos poderosos, que vivem ainda convencidos das virtudes do feudalismo, som quem de nos submeter, mas nós fusquenlhos, os aguardamos afiando fouces e chuços e facas e a mais grande poesia que cantou alguém nunca na Ibéria.

Estamos abandonados geração e geração, do estado, das leis e mais da justiça, indefesos ante os caciques locais, base da pirâmide ancestral do poder. Sabemos, pois no nosso lombo se marcam os paus, e na nossa memória os que antes levaram os nossos pais e avós, que há que calar as vozes que nos queimam dentro e aguentar.

Por isso gostamos do vinho e por isso temos assumido que se há que perder se perde, mas se não esquece. Não podemos dar soluções colectivas, pois na Galiza há uma continuada arrassadeira da estrutura civil, por isso as damos individuais. E quanto a nossa desesperança é grande, nada se pede, emigra-se.

Pedir aos senhores é condenar-se a escravidão. Os nossos inimigos são os mesmos que fixou daquela o tio Marcos no seu catecismo e não se pode recorrer a ninguém, pois mesmo a universidade continua a ser ama de cria do caciquismo.

Isso sabemos. E isso cantaram os nossos poetas no bico com uma estrela na frente. Elites intelectuais digníssimas que pudendo ser afamadas e agasalhadas dos poderosos e a sua propaganda preferiram seguir o rego da gente do seu povo e com ele souberam arar, partilhar chouriços, sardinhas e o pão, e comunicar-se para dar-lhe esperanças e anunciar a sua alvorada.

E tanto tem muito discurso pois pela configuração estrutural da Galiza, do seu povoamento e recursos:

O facto é que ao longo da história quando Espanha afunde, ou chega a limite Galiza esperta.
E o facto é que quando Portugal está em bons relacionamentos com Espanha a economia, cultura e população galega recupera-se.

Galiza é Espanha e é Portugal a um tempo, pois Espanha e Portugal existem pelo facto dos galegos lhes terem construído as bases, achegado homens, tesouro, cultura e vontades.

Nem a Lisboa, nem a Madrid que condenaram aos seus estados ao centralismo desestruturador interessa que os galegos emergirem, nem que contem uma história na que são os protagonistas, nem que estruturem a Galiza culta, democrática, sustível, ecológica e bem gerida que sonharam e desenharam os emigrados, os fuzilados, os esmagados. Gente sumamente guerreira e dificilíssima de conquistar.

E o que queira fazer outra história, ou outra política que a faça honradamente. Não apenas malbarate o património e a dignidade, para próprio benefício, pois a nossa cultura, como as nossas fragas, as nossas canteiras, os nossos rios, as nossas costas, as nossas gentes é larga, mas não infinita.

 

Ernesto Vazquez Sousa 


 
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