Elogio da Intolerância, resenha de Paulo Meraio Belasco «Elogiar a intolerância quer dizer agir e actuar, erguer o particular como metáfora do universal» Paulo Meraio Belasco - Slavoj Žižek (pronunciado como “slávoi jijec”) é um sociólogo, filósofo e crítico cultural que foi nado o 21 de Março de 1949 em Liubliana, na antiga Jugoslávia (actual Eslovénia). Doutorou-se em Filosofia na sua cidade natal e estudou Psicanálise na Universidade de Paris. É professor da European Graduate School (Leuk, Suíça) e pesquisador no Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana. É também professor visitante em diversas universidades estado-unidenses, como a Universidade de Columbia, Princeton, a New School for Social Research, de Nova Iorque, e a Universidade de Michigan.
A sua formação intelectual possui a virtude de partir dum conhecimento filosófico e sociológico profundo de raiz comunista, submetida à crítica, que foi implementado com o pensamento coevo ocidental europeu e estado-unidense. Ele próprio viveu o que denomina “socialismo-realmente-existente” e depois também o “capitalismo-realmente-existente”; esta linha vital e formativa fez dele umha espécie de olhador distanciado capaz de pensar o capitalismo desde dentro mas com os olhos de quem se estranha do novo e nom vivido antes, do alheio, do choque que provoca in-corporar o apenas imaginado ou ficcionado. Este livro, que já nom é novo, contém vários artigos ligados em fios argumentais e, num deles, fala da pós-política, da política da pós-modernidade que guia os nossos dias; desenha umha análise de nós próprios apoiando-se nas cousas que conhecemos da mão e podemos identificar e reconhecer, nas vivências. Exemplifica o seu discurso com filmes, livros, analisa a Bill Gates como ícone, a Viagra e, no último capítulo, na conclusão, urde um excelente argumento mercê à metáfora do Tamagochi para fazer-nos entender o conceito de interpassividade, de como somos seres passivos ao sermos activos a través de outro que actua por nós, de como “assumimos gestos de lamento para nom expressar a verdadeira dor”. Esta é a ideia que encerra o livro: a política actual é interpassiva. Mas para chegar a compreender o que essa ideia prenhe dá ao mundo, o leitor deverá passear antes polos outros breves artigos que compõem os elos da cadeia. O livro amostra como a ideologia da “tolerância” é umha construção nom inocente do capitalismo para reduzir os significados do plural ao simples e fundamental, faz ver como se verifica umha apropriação de conceitos para esvazia-los de contido. Eis temos o populismo de direitas que, à moda do fascismo, incorpora os anseios do povo e logra distorce-los para legitimar as relações sociais de domínio e abuso e, por esse mesmo caminho, é quem de agir sobre as aspirações dos oprimidos, discriminados e colonizados para “tolera-los” como “jeitos de viver”, simples estilos de vida toleráveis entanto nom subvertam a ordem (económica) das cousas. Fazer que as cousas tornem ao seu sitio, à normalidade, é, por definição, a finalidade das políticas antidemocráticas. Despolitizar é reduzir a simples formas de vida as reivindicações explícitas para assim negar o direito fundamental a sermos escutados e reconhecidos como iguais na discussão. Houve diferentes caminhos e modas para negar a democracia (que ele entende sinónimo de política), mas a maneira actual de negar o político é o que chama pós-política: o consenso como abandono das ideologias para aceitar qualquer cousa que funcione e nom embote a ganância capitalista, a política como arte do possível quando deveria ser a arte do impossível; o multi-culturalismo despolitizado que entende a diversidade unida por um único laço: o capital sempre pronto para satisfazer as demandas de grupos e subgrupos, a globalização a rescindir as identidades específicas. É a tolerância repressiva e racista do multi-culturalismo, o respeito como distância assentada na posição de privilégio que permite prezar ou desprezar o Outro, o Estado-Nação como equilíbrio instável entre a Cousa étnica e o mercado como função universal; o Estado que se auto-coloniza no quadro da globalização, que lhe fornece a forma na que manifestar-se. A tolerância do Outro entanto non seja um Outro real, enquanto o Outro nom regule de seu a sua especificidade porque, se isto acontece, acabou-se a tolerância. Na política pós-moderna, que faz parte fulcral da ideologia do capitalismo, ensinam-nos a tolerância e o consenso, estar a bem com todos. Mas resulta impossível ser imparcial porque mesmo ser imparcial é tomar partido; por tanto urge tomar conscientemente partido desde a mesma aparição das questões, desde que (nós) identifiquemos os seus sintomas. Já que logo deve ser suspendida a política da ética e do correcto porque o capitalismo global vai acudir às “maiorias morais” para despolitizar as reivindicações e reduzi-las ao tolerável ao vazio e imóbil. Eis como faz a pós-política que nos sintamos livres: Liberdade é a palavra que todo o justifica. Mas Žižek amostra como “sou livre para escolher sempre que escolha o correcto, de jeito que o único que sou quem de fazer é um gesto vácuo de pretender realizar livremente aquilo que já me vem imposto”. A liberdade do capitalismo força-nos a tomar decisões sem saber as consequências e, assim, a pessoa sente-se culpável sem saber os motivos da sua culpabilidade; a pós-política e a pós-modernidade fizeram a dissolução dos modelos tradicionais que gera essas angústias. As instituições que suplantam a família permitem prolongar a nossa dependência e imaturidade, nos tempos da despolitização da economia politiza-se a família para transformar a vida familiar em âmbito público, um âmbito do que fazemos parte como simples membros e nom como indivíduos maduros e responsáveis. Membros consumistas, passivos, apolíticos e narcisistas que vivemos o contacto com outros seres humanos como umha ameaça potencial... Degradada a pessoa a simples membro de grupos com estilos de vida toleráveis que livremente escolhem o que devem, agora já a liberdade toda fica para o capitalismo, chegado o fim das ideologias mercê à radical despolitização da esfera da economia, que só apreça o beneficio imediato sem meditar nas consequências, os cidadãos estamos impedidos para participar realmente nas questões que nos afectam. Slavoj Žižek assinala como solução à radical redução da liberdade do capital e à sua subordinação ao social, a ré-politização da economia. Alerta que por muito que proliferem formas políticas arredor de temas particulares (homossexualidade, ecologia, minorias étnicas) nada se logrará se estes dam voltas arredor de si e nom se manifestam a si próprios como metáforas do universal e do que realmente importa, que é a dissolução da economia despolitizada em todos os âmbitos, a economia ao serviço da sociedade. Elogiar a intolerância quer dizer agir e actuar, erguer o particular como metáfora do universal e defender activamente que qualquer cousa nom vale por ter a simples virtude de ser boa para engordar o capitalismo, por manter as cousas no seu lugar tranquilo. Paulo Meraio Belasco Berziano de Ponferrada morador em Compostela, arqueólogo e antropólogo em formaçom, gosta de escrever. Tem publicado relatos breves e umha colecçom de etopeias na editora Arcos on Line titulada 18 Etopeias. Retratos com paisagem . Em 2008 ganhou o concurso literário A rosa de cen follas. |