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Cronica da festa das letras por Concha Rousia PDF Correo-e
Xoves, 27 de Xullo do 2006

Uma crónica do DIA DAS LETRAS GALEGAS NO BERZO por CONCHA ROUSSIA.

Algo mais sobre as nossas letras (I)

Un artigo de: Concha Rousia[23/05/2006

Viagem entre as raias. Parte I:

As adormideiras Entre o envio do meu anterior artigo "Volve o 17 de Maio..." e o próprio dia 17, fiz uma viagem que começou em Santiago de Compostela para ir ao Bierzo primeiro, e prosseguir depois para Trás-os-Montes.

Partimos o dia 11, sexta-feira, ai contra o meio-dia, pola estrada que leva mesmo perto de Guitiriz, para apanharmos a autovia com direcção a Ponferrada, lugar do nosso primeiro destino. Paramos a jantar na formosa Vilafranca, onde nos desenvolvemos com a nossa língua sem qualquer problema. Éramos nos sós a falar galego no restaurante, mas o camareiro respondia como se todos, ele mais nos, estivéssemos a falar no mesmo idioma. À minha filha, que fez seis e anda nos sete, isso não a chocou, está já afeita. Logo de jantar uma carne que todos qualificamos de excepcional, prosseguimos o nosso caminho para chegar a Ponferrada, onde os amigos de Fala Ceibe nos aguardavam para festejar as nossas letras.O acto, presidido pola elegantíssima Sílvia Ribas, coordenadora dos diferentes eventos, começou com a entrega de prémios aos homenageados: Aquilino Poncelas e Alicia Fonteboa. Ambos os dous professores, que dedicam os seus esforços a lutar pola defessa da nossa língua, falaram da importância que tem a escola para poder seguir a manter vivo o galego no Bierzo; e talvez, se se espreitava com atenção, se adivinhava uma queixa polo abandono que levam sofrido por parte da administração galega, só por eles terem sido excluídos pola raia administrativa. Eu tive a sensação de que por primeira vez pensava neles como penso nos Palestinos aos que lhes toca viver nos territórios ocupados. Aquilino Poncelas dizia, em conversa privada, e com toda a razão do mundo: "...vos tendes a lei da vossa parte" e a mim essas palavras fizeram-me sentir em déveda com eles, com todos eles. "...se o galego –seguia a dizer ele- padece na Galiza, e precisa de cuidados para se recuperar, aqui está já a precisar de primeiros auxílios..." Ele viera de Bilbau onde exerce como professor de lengua e literatura só para celebrar as nossas letras. Eu apercebi-me de que se calhar ele tinha mais direito à decepção e ao desencanto do que eu, e ainda assim e tudo continuava, sem trégua, a sua luta. Admirei o seu espírito. Atrás de Alicia e Aquilino falou Felipe Lubián, essa lenda viva da que pouco posso eu dizer que se não saiba.

Ele é uma instituição para o galego, e leva conseguido mudanças administrativas importantes para a nossa língua na comunidade de Castela e Leão. Falou de como quando ele era pequeno, ele nasceu no ano 52, nunca teve problemas para falar galego na escola, porque dera com verdadeiros mestres; mentres que hoje em dia, os pequenos das aldeias das Portelas têm que esconder a sua língua antes de entras nas escolas, porque professores ignorantes desconhecem os direitos linguisticos destas terras.Atrás destas intervenções vieram as obras de teatro, e as leituras da obra de Manuel Lugris, por parte dos meninhos e meninhas do Bierzo. Foi tenro e divertido. Aos miúdos seguimo-los os que levávamos algum poema para a partilha. Eu levava nas minhas palavras as ondas do nosso mar, desse mar que quando abraça a terra fala a nossa língua e portanto é também o mar do Bierzo, ele não entende de raias administrativas sem sentido. A poesia foi continuada pola música, gaitas primeiro, e o acordeão de Servando depois, encheram a sala de cantares e de risas dos que ouviam por primeira vez a copla do Manuel do Campo quando ele quisera casar com a burra...

O ramo desta parte da festa puseram-no os de Abertal, agrupação de pandeireteiras e baile, que levaram a festa para fora do edifício. Música e dança atraíram a gente que, sentindo a chamada das gaitas no seu interior, se foram achegando, outros assomavam das janelas e espreitavam desde a distância esta música que nós todos, hoje, queríamos que Ponferrada, e o Bierzo inteiro, sentissem... Rematada a foliada um grupo de galegos e galegas, alguns do Bierzo outros não, fomos cear ao Navia, e agora sim veio a valorização da experiência por parte dos que não estamos afeitos a vir a Ponferrada. Todos concordamos em ter experimentado a sensação de ser bem entendidos quando falava-mos, mas quase nunca ouvíamos falar na nossa língua mas que quando aparecia uma frase solta no meio do castelhano "...uma firminha..." ou como disse a mulher do café onde estivera o Xandre, quando lhe caiu a caixa com as saquetinhas do açúcar ao chão: "...alá vai...!" e o homem e a mulher que da esquina do balcão olhavam a cena que interrompia a sua conversa em castelhano dizem, talvez até sem eles próprios escutarem-se: "...que foi o que passou?" "não che sei..." Todos e todas nós experimentáramos o pressentimento de que o galego fica dentro das pessoas todas, mas fica como anestesiado, e eu não posso parar de pensar se todas essas adormideiras que inçam os formosíssimos arredores da cidade terão algo a ver...Pola noite o encerramento tive lugar no pub "La Gatera" com o concerto de Servando e a apresentação do seu disco "Som Voltas" Aqui, neste local, onde, em lugar de máximo destaque, está a nossa bandeira da estrela junto com uma de Nunca Mais, e um mural de Bierzo Livre pintado na parede em azul branco e negro, a festa foi a rachar; a imparável dança fez suar até as pedras todas das paredes do pub. Logo foram-se somando à festa mais e mais moços e moças, e embora o seu galego não era ele lá muito fluido, ha que dizer que houve algum que fez falar gaita, pandeireta, e tarranholas como poucas vezes eu ouvi na minha vida. Finalmente houve que ir em silêncio para o albergue onde os peregrinos desde bem cedo dormem. A caminho do albergue demos a volta para passarmos pola beira do castelo para ver se Nerea conseguia ver o dragão, acho que o sono (eram mais das duas da manhã) lhe permitiu algum auto-engano divertido. Mentres ela andava a procura do dragão eu espreitava as ruas e praças que estavam inçadas de gente nova, e tive a sensação, não sei se acertada, de estar numa cidade desnorteada, numa cidade à que lhe falta a certeza duma identidade; e foi ai que alguém, como se andasse a pensar o mesmo que eu, disse que adivinhava que toda a Galiza se converterá em algo similar a isto se a desfeita da língua não se para. Um calafrio percorreu o meu coiro. Este arrepio somado às palavras do Aquilino falando da necessidade de primeiros auxílios para o galego no Bierzo deixaram em mim a impressão de ter visitado o frente duma guerra, frente no que eu me julgara desde os 14 anos, mas aqui vim a compreender que só na retaguarda é que eu tinha estado.

Fomo-nos para o albergue, amanhã havia que erguer-se cedo e continuar a viagem para Trás-os-Montes, na outra raia administrativa. E ainda bem que em chegando lá receberíamos o efeito contrário ao que daqui levávamos, ou isso era o que eu antecipava, mas... mal pensava eu o que me aguardava por descobrir.

 

 

Viagem entre as raias. Parte II: O acordar

Era sábado de manhã, acordamos com os andares dos primeiros peregrinos, ai para as 5h30 a.m., mas houve que aguardar um bocadinho para poder arrancar a Nerea da liteira do alto e arrastá-la até o automóvel onde continuou a dormir.

Deixamos Ponferrada caminho do Barco, atravessamos as montanhas sentindo-nos abraçados pola beleza continuada dum bosque sem eucaliptos, soubemos que deixáramos o Bierzo atrás quando apareceram os primeiros letreiros com a nossa toponímia sem traduzir. E não vou dizer que nos sentimos bem, porque não é certo; eu fui-me com uma profunda saudade que alguém me transmitiu; não sei se foram os olhos da mulher que me pediu "uma firminha" ao botar gasolina, ou se foram os olhos com mirada de lobo que ainda se defende, e nos defende, de Felipe Lubián, ou talvez por não ter visitado as aldeias, e poder falar com os miúdos aos que não lhes está permitido levar a língua própria à escola... o certo é que eu parti com uma saudade imensa no meu corpo, que mesmo agora ao lembrá-la atrai até mim a cor dos telhados de piçarra que continuaram a fazer parte da paisagem até bem passada a Rua. Chegamos ao Barco e continuamos sem nos deter. Eu reparei que as adormideiras foram indo a menos e agora quase não havia.

Em A Gudinha (que até deveria ser Agudinha, não sim?), apanhamos a autovia e em pouco tempo estávamos em Verim, fomos para a estrada de Chaves e à saída de Verim eu vi um campo cheio de adormideiras e senti outro calafrio, era só uma leira, mas...

A mim as adormideiras sempre me fizeram pensar nas beberagens que o tio Rafael de Covas, seguindo as receitas duns livros chegados por correio de Barcelona, preparava; hoje vem-se-me à cabeça... se não andaria ele, que era pedreiro, e homem muito sábio, pensando já nalgum antídoto...

Passamos Chaves, Boticas, e fomos a Vilar, a aldeia de destino. Ao desligar o motor acordou Nerea, era a hora de vir o gado do monte; ela baixou o vidro da sua janela e perguntou quando é que chegávamos a Portugal; foi informada de que já cá, em Portugal, é que estávamos; "pois a mim aqui parece-me Covas" "e a mim também filha, a mim também... este lugar chama-se Vilar e agora vamos que os Encontros dos Dias da Criação já começaram e eu chego tarde..."

Quando entramos polo portão do quintal da casa de turismo rural ‘Eira Longa’ que acolhia estes encontros de criadores de poesia, narrativa, música, pintura, audiovisual, fotografia etc., na sala de reuniões estavam a falar Carlos Quiroga e José Maria Álvarez Cáccamo, que contavam qual é a situação da criação na Galiza actual. Depois seguiu-lhe um descanso e uma olhadela as exposições de arte que acolhiam os impecavelmente restaurados locais, e onde outrora estivera a moreia da lenha e a erva hoje dependuravam as obras de artistas galegos e portugueses. O espigueiro, de três claros, feito em pedra no mais clássico estilo, acolhia também desenhos artísticos. Logo do jantar, que naturalmente incluía carne assada do Barroso, vieram os actos literários e audiovisuais diversos, e os ecos atestaram de sotaques muito diversos o local, também tivemos ocasião de ouvir recitar poesia em Mirandês. Lá fica o recendo das falas galegas subidas nas traves, onde, em tempos, se subia a rapaziada para brincar e calcar na erva. Já pola noite, logo da ceia, vieram as actuações musicais, as declamações, e as performances. Tudo com total apertura, participou todo aquele que quis, o que fez possível a convivência de artistas consagrados e dados a experimentação do mais actualíssimo jazz ao piano, com outros músicos que estão apenas começando a sua carreira criativa. O único lema era a partilha. De aqui fomos a dormir, todos fomos hospedados em casas de turismo rural, a nossa ficava na entrada do parque natural do Geres, perto da barragem de Paradela. À manhã seguinte, de volta na casa da Eira Longa, logo dum pequeno almoço, deu-se começo aos actos de encerramento dos encontros. Vieram as valorizações, os planos de futuro, as trocas de telemóveis e endereços, os abraços e as palavras de apreço polo trabalho dos outros e a despedida, que rematou com um jantar no que não podia faltar a feijoada.

Quando já me dispunha a marchar, e já os meus aguardavam por mim no meio da aldeia, foi então que vi a senhora Ana Maria; estava na eira, de pé, perto da porta do comedor, disse-lhe adeus e ela respondeu: "Adeus filhinha, adeus..." Eu vi que era ela quem falava mas eu estava a ouvir a voz duma das mulheres de Covas, a minha aldeia. Acerquei-me e perguntei-lhe como é que se chamava, ela respondeu... O tom de voz, a melodia, o jeito de pousar os braços sobre o seu corpo, tudo, tudo a convertia numa mulher da minha aldeia. Eu passara estes dous dias entre diversos sotaques de falas portuguesas e galegas e nenhuma das pessoas, nem das portuguesas nem das galegas, falava a minha fala como a falava aquela mulher. Conversamos, eu perguntei e ela contou-me. Tinha eu estado rodeada de gente pensando que partilhava muito, para finalmente encontrar a pessoa com a que partilhava o modo de entender o mundo, o universo, e também a fala, que é algo mais do que a língua. A senhora Ana Maria, a quem a vontade me pediu chamar-lhe tia Ana Maria, como a qualquer mulher da minha aldeia, sabia a forma exacta de pousar a sua mão no meu braço, a distancia à que manter o seu rosto do meu, o jeito de fitar e o tom da sua voz, e percebeu que eu dominava o mesmo código. Por um momento toda a gente desapareceu, os poetas, os pintores, os músicos, os fotógrafos... e ficamos ela e eu sós na Eira Longa, duas mulheres que levam luto, a tia Ana Maria polo seu filho, e eu pola minha mãe. As duas sabemos que o mundo, que sempre fora nosso, deixou de pertencer-nos, e as duas nos vemos, nada importa que ela passe dos noventa e eu só dos quarenta, e sabemos que somos diferentes do resto, e até a fala deles, tanto tem galegos ou portugueses, é diferente da nossa.

Parti dali desconcertada; entre outras cousas a senhora Ana Maria contou-me que ela fora nascida nesta aldeia onde estávamos, Vilar, mas que casara em Covas, uma aldeia que fica por aqui perto, na comarca de Penalonga. Estes dous nomes eu nunca ouvira juntos fora da minha paroquia, constituida por duas únicas aldeias, Covas e Penalonga, que pertencem ao concelho de Os Blancos (OU), mas não quis interrogar a senhora Ana Maria, só mencionei a coincidência. Parti, e ao relatar-lhe aos meus a, altamente emocional, experiência, comecei a ter dúvidas, que não sabia como responder... Volvi a casa da Eira Longa e falei com a filha da senhora Ana Maria, vi que também esta falava como eu, e contei-lhe o das minhas aldeias, Covas e Penalonga, e ela disse que é uma coincidência muito divertida as nossas aldeias chamarem-se igual. Então perguntei-lhe que o quê pensava ela (era uma mulher uns 15 anos maior do que eu) do facto de ela, sua mãe, e mais eu falarmos mais parecido do que ela com muitos desses outros Portugueses, e se achava que era um efeito da televisão, porque é a explicação que eu lhe dou. Ela concorda comigo, e com esse efeito que a TV tem tido na maneira de falar dos novos, e acrescenta... "mas também depende muito das regiões de onde é a gente, e nós aqui somos galegos" Despedimo-nos com um abraço e eu, agora sim, parti.

Fui-me com mais saudade da que carrejara comigo do Bierzo. Porque eu vejo como polo Leste avançam os sons chegados de Madrid que abafam a minha língua e a também a minha fala, e ao mesmo tempo vejo como polo Sul, chegados de Lisboa, vem sons que, sem matar à minha língua, abafam a minha fala. Eu bem sei que muitos nunca podereis entender isto, outros simplesmente não querereis, mas eu sei que os que me conheceis bem, e mais os que já me vais conhecendo, sabeis que passou assim, tal como vo-lo conto, e nem precisaria de vos dar a minha palavra de honra, ora, eu dou-vo-la, a todos e a todas, de que tudo aconteceu tal como eu contei.


 

 

 
< Ant.   Seg. >
 
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